Ao se pensar no homem pré linguagem é possível imaginar sua relação natural e simbiótica com o mundo que o cerca, a partir da invenção da linguagem surge o que chamamos de “individuo”, um ente único no mundo por sua potência de adaptação não física mas intelectual sobre o espaço que habita, essa mesma potência adaptativa é também criadora e inovadora, gerando não só um homem mais vários. Na bíblia, mas especificamente em gênesis, se encontra a passagem sobre a torre de babel, onde em uma época anterior as múltiplas linguagens o homem tentou construir uma torre para alcançar o céu, deus ao ver o feito diz: “Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que não entendam a linguagem um do outro.”, deus nesse momento castra a potência criadora do homem, separa o homem do divino, assim como a linguagem o separou da natureza. Hoje com a antropologia e linguística já se sabe que multiplicidade não só de linguagens mais de percepções de mundo são próprias da natureza humana e que essa castração do homem é própria de uma hegemonia cultural e reflexo de um processo colonizador cristão e europeu. Um dos pilares mais fortes dessa hegemonia é o conceito de economia, economia vem do grego oikos, ‘casa’ + nomos, ‘costume ou lei’, ou também ‘gerir, administrar’: daí “regras da casa” ou “administração doméstica” e hoje é entendida como uma ciência de análise da produção e distribuição de bens de consumo. Hoje somos entendidos como seres econômicos, ditados por uma mão invisível do mercado, já as múltiplas línguas, mesmo que dividida por deus, se tornaram um problema risível diante da capacidade de globalização do mundo contemporâneo ditada por um modelo capitalista de economia, suprimindo o homem a um ser estritamente econômico. Esse encarceramento do homem gera uma falsa sensação de que a relação do homem com a vida gira em torno de objetos técnicos e economicamente computados e transformando nossa relação com o natural em puro utilitarismo, como disse Ailton Krenak, “Chamar a natureza de recurso é transformar a vida num almoxarifado.”
Marshall Sahlins ao estudar os povos nômades da Austrália quebra a ideia da antropologia clássica de que os povos nômades são pobres não só material como culturalmente, demonstrando uma abundancia não apenas alimentícia mas uma filosofia de vida muito interessante e alta mente ligada com a ideia de movimento. Por serem nômades a ideia de posse se torna supérflua pois limita a movimentação e movimento é vida, não apenas a ideia de movimento se tira disso, umas das características desses povos é o pouco cuidado com matérias produzidos por eles, podendo esses serem destruídos por crianças ou animais logo após a produção, aqui se enxerga uma clara percepção do homem como criador, a potência de criação vindo do próprio ser. Se pudéssemos analisar nossa atual conjuntura social percebemos a total dicotomia com nosso modelo de consumo, que está diretamente ligada a nossa percepção de vida como ser econômico. Tomemos como exemplo a situação atual do Brasil onde se estabeleceu uma estado de exceção resultado de uma crise econômica, contudo o processo de criação da crise se estabelece muito mais no simbólico do que no factual como aponta Agamber: ““Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.”, isso é resultado da construção de um modelo especifico de sociedade, podendo ser superada, pois se surge como criação humana pode ser desconstruído pelas mesmas.
É possível pensar formas imediatas de retalhar os danos não apenas sociais como naturais ao mundo em que vivemos, como bio-construções, reutilização de produtos, uso de bicicletas e etc. Pensar em ações imediatas é fundamental para restituir perdas históricas sociais e estruturais, contudo também pensar em mudanças mais drásticas a humanidade é fundamental para gerar novas perspectivas de vida que não funcionem como repressoras de nossas potencias e sim como impulsões de criação. Se pudermos entender que como demonstra a antropologia as diversas teias em que discorre a natureza humana teremos em mãos a possibilidade de gerar uma nova condição humana. Para isso é preciso fundamentalmente utilizar da vida como referência da nossa moral e não meios científicos ou econômicos pois como afirma Marx, “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.”. Pois o capitalismo e sua ideia de consumo posicionam a ilusão da capital como valor vital mas nega o valor vital real que é a vida em si. “Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça.” Marx.

Diego goldman

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